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Hs 126 A-1/B-1 Italeri/ICM

Bruno Santim Cascapera

Experimentamos a nova geração dos ICM’s, trabalho delicado em um kit muito trabalhoso.

É notável como todas as marcas de plastimodelismo em atividade estão reformulando suas linhas. Nessa matéria falaremos de duas marcas tradicionais que se uniram para por no mercado um belíssimo modelo de um avião que faltava na coleção de muitos colecionadores de Luftwaffe.

A ICM é uma marca recente, de 2003, e veio surfando na economia emergente dos países do leste europeu. A marca sempre teve foco em fabricar modelos de coisas inéditas, ou de modelos militares com muito apelo na história da primeira e segunda guerra nos Bálcãs. No inicio, seus kits ficaram mal afamados devido a algumas falhas, e por fazer alguns kits muito difíceis de serem montados. Mas na verdade, a marca mostrava traços do que parecem muito comum hoje em kits do leste europeu, kits bem detalhados, mas difíceis de montar. Mas o mais interessante mesmo era o fato deles investirem em coisas inéditas, isso fez com que a marca ganhasse muita relevância entre os modelistas do mundo todo. Não que a marca não tenha suas apostas manjadas, como King Tigers ou Bfs 109, mas pelo menos é uma marca que sempre aparece com novidades, como kits novos do Ju-88, o tão aguardado Do-17 1/48 com qualidade, e o Hs-126 que iremos analisar nessa matéria.

Outro fato curioso da marca é ela ter grande parte de sua produção distribuída, principalmente na Europa, por marcas de maior penetração, como Revell e Italeri. Com isso, é provável que você tenha kits ICM na sua casa e nem saiba. Nesse artigo, o modelo veio embalado pela Italeri. Acredito que a Italeri tenha escolhido distribuir esse modelo devido à marca manter por anos um modelo do Hs-126 na escala 1/72, um kit nada legal de ser feito, mas que reinou por anos como o único para esse avião. Mas o modelo fez bem para a marca italiana, que também vem reformulando suas ações e seus kits para uma nova geração de plastimodelistas. A marca que já emplacou modelos muito ruins e amargurou grave crise financeira nos anos 2000, hoje injeta produtos de alta qualidade, além de distribuir bons modelos de marcas como Tamiya, Accurate e a própria ICM em questão.

Então vamos avaliar a montagem desse monstrengo de asa para-sol e vamos ver onde vamos parar...

Unboxing: Cheiro de kit bom a caminho. Será?

Pra quem até uns oito anos atrás nem embalava as árvores em bags plásticos, até que essa nova Italeri está se saindo muito bem no quesito caixa. Uma caixa bem resistente e impressa guarda o modelo devidamente acomodado em seus bags, sem se apertarem demais na caixa. O manual, “old school”, em preto e branco, sem maiores novidades, cumpre seu papel e nada mais, referências coloridas para a pintura seriam muito bem vindas aqui, mas inexistem. As folhas de decais são um show, 7 versões, incluindo Legião Condor e capturados, impressos pela gráfica italiana Zanchetti Buccinasco, tudo com muita qualidade e riqueza de detalhes.

O modelo na árvore anima. Três árvores de peças, mais uma de transparência, além das duas partes da enorme asa, tudo muito bonito, delicado, com ótimas linhas e muitos detalhes. Chama a atenção o plástico (típico da ICM), um produto meio rugoso, que não inspira confiança, aparentando ser um material de segunda, além de ser muito frágil para as peças menores e reagir muito mal a qualquer solvente que não seja água.

Tirando esse detalhe do plástico, o modelo é promissor. Vamos analisar a montagem e ver o que acontece.

Montagem: Porque nem tudo é perfeito

Antes de começar a falar da montagem, gostaria de deixar claro que nesse modelo (por opção minha) foi utilizado photoecheds da Eduard além de muito trabalho em scracht. Essas coisas enriquecem o modelo, mas dificulta muito a montagem. Prometo que irei avaliar o modelo ao que tange essa questão, e focar naquilo que é mérito ou demérito apenas do modelo, e não das suas modificações.

Retirar as primeiras peças do modelo e iniciar as primeiras montagens já nos dá a sensação de onde estamos amarrando nosso burrinho...

O kit é delicado? Sim, é! É rico em detalhes? Sim, é também!... Mas não espere um kit fácil. No quesito encaixes, o kit deixa muito a desejar. Desde as peças básicas como itens do console, até estruturas vitais como fuselagem ou asa, os encaixes (quando existem) são péssimos. Percebe-se isso quando se tenta encaixar os comandos na parte interna da fuselagem, não existe furos, batentes, molduras, chanfros nem nada que nos dê a real indicação da montagem. A colagem do acento do piloto no assoalho frontal é horrível, o posicionamento dos dois assoalhos do interior é péssimos, sem referencias, peças ficam largadas dentro do interior a todo o momento. A solução encontrada para o montante do motor é péssima, dificílimo de alinhar, e sustenta o motor e toda a fronte do modelo de forma muito esquisita.  O motor é riquíssimo em detalhes, mas também muito cheio de erros para se pensar em fazer o modelo com o capô aberto. Além das hastes de água e combustível que parecem sair do nada e chegar ao lugar nenhum... Definitivamente, esse motor precisa ser muito melhorado (ou subsistido) caso opte por fazê-lo aberto. As peças que formam a nacele se encaixam de forma absolutamente vaga no modelo. Fechar o modelo é muito difícil, principalmente na parte frontal onde um monte de peças confusas, que formam motor e nacele, se une.

Por todo o resto do modelo, não existe peças que se encaixam a perfeição, que não necessitem de ajustes. Juntar os dois lados da asa é outro desafio, o kit mais uma vez não apresenta encaixes ou batentes, a colagem é feita apenas de topo, e a impressão que um lado é menor que o outro incomoda. Após fechar a asa, o desafio é equilibrá-las nos estais do suporte. Nessa hora, os encaixes ruins, somados ao plástico molenga demais, tornam a montagem critica. Os encaixes funcionam mal, e quase todos precisa ser aparada para melhor entrar em seus chanfros, mesmo depois de tudo encaixado e estabilizado, a asa vibra muito sobre os estais (não quero imaginar o que vai ser de mim para levar esse modelo em eventos!). Todas as superfícies de controle do avião são encaixadas apenas de topo, de forma justa e até que funcional, apresentando apenas problemas nos ailerons, onde os atuadores precisam ser afinados para caber em seus orifícios. Todo o conjunto da deriva se torce alguns graus para a direita, como no avião de verdade para equilibrar o tork-roll do motor, e nisso o modelo acertou.

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Resumindo: O modelo não funciona bem. O modelo “joga contra” quase todo momento. Desanimador para um modelo tão promissor.

Pintura

O modelo foi todo pintado de Pr-colors, minha grande parceira no blog. RLM 78 e o RLM 79 forma aplicados de forma a já parecerem queimados no modelo, depois foi acentuado o efeito com técnicas de filtro shadding, manipulando as cores e seus tons para acentuar o aspecto de escape de luz nas placas, levando em conta o formato do avião e de suas chapas. Para esse serviço geral de pintura, foi utilizado o aerógrafo Paasche TGX Vison (também sendo avaliado). A camuflagem foi feita a mão livre com RLM 80 Pr-colors, sem a utilização de mascaras ou artifícios, com um aerógrafo Haarder & Stenback Infinity de agulha 0,15, que foi avariado durante o serviço, e mais uma vez foi utilizado o Paasche Vison para terminar a camuflagem de forma muito eficiente.

O modelo ainda recebeu pequenos sombreamentos com Smoke da Tamiya, um delicado serviço de filtros com lápis aquareláveis, assim como os delicados descascados também foram feitos com lápis em alguns pontos, e em outros com drybrush e tintas Vallejo. Além disso, o modelo recebeu duas cores de washed, todos feitos com tinta óleo, um tom marrom queimado para as partes em RLM 79, e azul escuro para onde foi o RLM 78. O modelo foi finalizado com uma camada leve de verniz Dullcote da Testors.

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Conclusão

Pareceu-me algo bem claro quando estava montado esse modelo. A ICM focou nos detalhes do seu modelo, mas deixou os encaixes e a eficiência de lado. Isso torna o modelo quase exclusivo para modelistas muito experientes e repletos de recursos. Novatos, passem longe! Acho isso chato, pois é possível adquirir um resultado legal no modelo, pois todos os detalhes legais estão lá, mas não sem antes pagar o preço de sofrer passo após passo com o modelo, quase não valendo a pena à montagem. Eu tive umas duas ondas de bloqueio montando esse modelo, desanimador mesmo...   

Pode parecer chatice deste que e escreve, mas vejamos por outro prisma. Kits antigos como alguns Tamiyas, Monograns, Hasegawa e outros perduram por vinte, trinta anos e até mais no mercado, mesmo defasados em relação aos concorrentes, mas possuem uma montagem tão agradável e fácil, que ainda são rentáveis, muitas vezes ainda preferidos a algumas novidades... Enquanto vimos na ultima década casos de recals de kits por eles conterem problemas quase incorrigíveis em suas composições. Ou seja, um kit de montagem agradável pode dar ao modelo uma sobrevida no mercado muito grande, enquanto o de montagem ruim vai ganhando críticos a cada montagem e tendo sua reputação minada. Não deve ser o caso desse modelo, porque ele tem suas virtudes, vem a ser o único do Hs-126 com exceção de modelos “short run” ou de resina, que são muito piores que ele.

Para não acabar demais com a reputação dele, vamos falar o que ele tem de bom. Ele se faz montável devido seu alto nível de detalhes, principalmente do interior, já que na parte externa não há muito que inventar. Algumas soluções técnicas ou estéticas do modelo superam as opções dos photoecheds da Eduard. Algo que chamou a atenção na montagem foi a qualidade dos decais, a Italeri escolheu muito bem seu fornecedor.

No final, o modelo ficou muito bonito, apesar de tudo. Fiquei muito feliz de ter terminado, daria uma nota 6,5 para o modelo, a mesma nota que se dá a aquele garoto arteiro, porém inteligente, que tem um enorme potencial, mas gasta seu tempo jogando bola na sala... E é isso que a ICM e outras marcas do leste europeu vêem apresentado nos últimos anos, um potencial enorme para kits épicos, mas que no final, apenas “passam de ano”. Mas agradeço pela existência dessas marcas, só assim teríamos um Hs-126 montável no mercado, já que algumas marcas tops parecem se preocupar em lançar mais do mesmo sempre...

Se eu montaria outro desse algum dia? Bom... Deixa pra lá...

Falando um pouco do Avião

O Hesnchel Hs-126 nasceu nos idos de 1936 para concorrer em uma licitação publica do Rechsluftfahrministeriun (Ministério da Aeronáutica alemão no período da guerra, ou RLM) que previa um avião de reconhecimento e ligação. Para atender os requisitos do projeto, a Henschel partiu de do projeto de um avião seu já existente, o Hs-122a, um pequeno avião esportivo já utilizando pela clandestina Luftwaffe da época. Eles adequaram no projeto o então poderoso motor radial Bramo de 800 cv, para isso as dimensões de fuselagem, altura e envergadura tiveram que ser aumentadas, e com isso o avião ganhou suas grandes dimensões.

Ele tinha alguns problemas de voo, como uma tendência perigosa a entrar em parafuso pelo tork roll do motor (motivo pelo qual ele tem sua deriva desalinhada), ou áreas da asa que geravam instabilidade e isso foi dando má reputação ao avião. Mas o fato é que os itens requisitados na licitação foram atendidos, como uma condição visual favorável para piloto e co-piloto (que nesse caso ocupava as funções de gunner e de operador da máquina fotográfica) para as funções de reconhecimento, confiabilidade para missões de ligação (aquelas em que oficiais documentos ou itens valiosos são transportados de forma discreta e rápida), e principalmente os requisitos de STOL (short take-off and landing, ou em bom português, habilidade de pousar e decolar em pistas curtíssimas).

Apesar dos pesares, o Hs-126 atendia as necessidades e tinha tudo para ser o principal avião reconhecimento da Alemanha na primeira metade da guerra. Seria ele se não fosse um de seus rivais na concorrência: o Fieseler Storch Fi-56, o avião de reconhecimento e ligação mais moderno e eficiente de toda a segunda guerra. O avião perfeito para a função.

Com isso, o “regular” Hs-126 ficou eclipsado diante do rival, e perdeu a concorrência, condenando seu financiamento. Mas ainda sim, devido ao bom relacionamento da Henschel com o RLM, somado a uma boa produção e disponibilização de motores Bramo na época, a RLM assinou a compra de algumas unidades para que a Henschel pudesse seguir com o projeto. As unidades fabricadas para a homologação da concorrência, conhecidas como pré-series, foram enviadas para a Espanha para atuarem na Legião Condor, assim como as primeiras unidades da série regular.

O Luftwaffe acabou adquirindo no total 800 unidades aproximadamente e utilizando para as mais diversas funções, como bombardeiro estratégico, reboque de planadores, avião de instrução, além das funções de reconhecimento e ligação. Ele era conhecido como “observador médio”, já que o Storch era o observador “leve”. Esteve em operação em todos os frontes, em quase todos os esquadrões de observação e apoio, até 1941 quando sua produção foi interrompida já que havia um novo avião para sua função, e mais eficiente, o bimotor Fw-189, e a própria Henschel já não se interessava mais em produzi-lo. Mas ele não foi retirado de serviço por completo. Ele permaneceu até os últimos dias de combate fazendo serviços como reboque de planadores e instrução para novas tripulações de aviões de reconhecimento.  

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