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BISMARCK 1/200 AMATI

Bruno Santim Cascapera

O ícone da batalha do Atlântico em um modelo que desafia até o mais experiente modelista.

Eu sempre comento nas minhas colunas sobre a experiência que é montar um modelo. Detalhes de encaixe, precisão, exatidão e qualidade de um modelo refletem diretamente a visão da empresa que o fabrica. Hoje vivemos na era do "kit vendido na caixa", onde o que mais atrai novos clientes é a qualidade do produto na caixa, a quantidade de peças e a forma como tudo isso é apresentado. Temos célebres casos de kits muito vendáveis nesses termos, mas que apresentam montagem bastante problemática. Mas temos também aquelas empresas que estão sempre tentando surpreender aqueles que acham que não podem ser mais surpreendidos. Os que resistem no modelismo vivem hoje, em minha opinião, uma era de ouro de novos kits e opções.

Mas o que dizer de uma marca que não esta aí para tendências? O que dizer de uma marca de mais de cem anos no mercado que imprimi seu próprio valor de qualidade, e está muito bem com isso, obrigado?

Estamos falando da Amati. Uma empresa que está no ramo desde 1879 oferecendo um modelismo próprio, a moda antiga, clássico, ao mesmo tempo fascinante, surpreendente e lindo. Há espaço para uma empresa dessas? Hoje em dia mais do que nunca! Com a valorização de tudo que é “vintage”, mais uma crescente necessidade do "hand made" do século XXI, uma forma de pensar modelismo meio ao estilo século XIX torna a marca bastante atrativa.

Para mostrar o que é essa experiência, apresento a vocês um colosso. Simplesmente um Bismarck na escala 1/200. O modelo foi comercializado no Brasil em bancas de jornal, em 140 fascículos, aproximadamente 3.000 peças entre balsa, MDF cortado a laser, dúzias de folhas de photoeched, peças em plástico, resina, fibra de vidro, fios de cobre, tubos de alumínio, peças fundidas, fios de nylon e etc.

A marca possui um aproach próprio, diferente de absolutamente tudo que vemos hoje no mercado. Nascida antes mesmo do advento do plástico, fincou suas tradições nos clássicos modelos de veleiros e barcos de madeira em geral, seguindo um esquema de construção que se assemelha demais com a construção de um veleiro verdadeiro. Apesar de o Bismarck ser um encouraçado de aço da segunda guerra, a Amati trouxe para o modelo todo esse DNA de construtores de veleiros.

 

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Todo o casco é construindo em madeira, cava por cava, ripa por ripa, casco e contra casco montado "madeirinha por madeirinha", assim como todo o resto das estruturas superiores da construção. Uma solução século XIX que não é das mais fáceis, nem o ideal para um barco "metálico". A experiência de montar um casco de madeira, para um "plastimodelista" como eu, apesar de não ser a minha primeira vez, foi bastante traumática, pois nunca precisei transformar madeira em metal. A solução não é boa. Apesar de até achar divertido os primeiros passos do casco, fazer a curva na madeira, lixar, vedar, alisar e preencher as frestas para tornar o casco algo liso, se apresenta um tarefa árdua. A maior parte do tempo gasto no projeto foi “brochante” e dedicado a tarefa de fazer o casco "funcionar".

O modelo é todo fabricado com esmero e capricho, peça a peça, o kit Amati é uma jóia. Jóia para poucos. E não estou falando apenas de preço, algo que já se justificaria. Mas não é isso. O modelo é pra poucos pois em nenhum momento a proposta da Amati foi fazer um modelo fácil, indicado a iniciantes. O kit é pensado e projetado para, da forma mais elegante possível , arrancar suor e lagrimas do modelista valente que encarar a brincadeira. O modelo te desafia a todo momento. As soluções encontradas invocam sempre a sensação de construir algo você mesmo, com o modelo apenas orientando e oferecendo o material necessário, mas todo os ajustes, cortes e aferições ficam por conta de quem esta montando. A beleza e a riqueza de detalhes é priorizada no projeto, independente se a solução encontrada será viável a todos os modelistas. É preciso muita malícia e experiência para atravessar os infinitos passos do manual.

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O modelo possui todo um esqueleto central feito em madeira MDF e balsa, tudo cortado a laser de forma precisa e ajustada. Com o chassi das estruturas montados, se inicia a tarefa de revestir com photoeched as infinitas laterais superiores. São dezenas de folhas de photoeched (dezenas mesmo, mais de 30) que abrangem desde as paredes das estruturas, até os detalhes delicados e miúdos como portas, escotilhas, amuradas, pequenas estruturas e mais uma infinidade de coisas.

As peças em plástico não são dominantes, mas mesmo assim vêem em bastante quantidade, e ajudam a completar a coleção de armamentos, telêmetros, antenas e tudo mais. Nada simples, e nada fácil. Cada avanço no manual exige do modelista perícia, paciência e boas ferramentas. Resumindo o modelo, não sei quais desses itens é o mais importante. E aí vai minha primeira grande crítica a esse modelo.

A dificuldade dele em si não me incomoda. É esse o propósito da Amati, dificultar a sua vida para que o resultado fique mais valorizado. Mas a todo o momento, quando passava por dificuldades das mais variadas no modelo, me vinha à mente a forma que esse modelo foi oferecido ao público em geral. Em dezoito anos de modelismo, doze anos de modelismo profissional, dez dando aula, passei por apuros bem desafiantes nesse modelo, mesmo pra mim com minha experiência, como dobrar algumas centenas (talvez milhares) de peças de photoeched das muradas, portas, passarelas e estruturas em geral, a fabricação da murada inferior (imagine a aflição de passar uma linha numa agulha 308 vezes, 3 vezes em cada agulha!), a colagem e acerto do casco, a solda nas peças de metal, a lida com as folhas de balsa cortadas a laser dos assoalhos, as intermináveis antenas, as peças minúsculas em profusão...  Enfim, vários ápices de dificuldades mesmo para veteranos. Mas pouco disso (ou nada) foi informado para os leigos que viram a coleção na banca e se empolgaram. Deveria haver um aviso bem contundente em relação a isso. E de fato, vários casos chegaram a mim de pessoas que simplesmente não tinha a capacitação suficiente para tocar um projeto dessa magnitude.

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Outra critica é o manual. Trata-se de um enorme fichário com 600 páginas com fotos e texto. Na boa intenção de colaborar com o cliente da coleção, o manual foi feito com fotos “passo a passo” de alguém montando o modelo e o explicando. A intenção foi boa, mas não funciona como deveria. O manual é confuso muitas vezes, além de ter sido escrito para coincidir com a publicação dos fascículos e, por fim, é falho em várias etapas de montagem. Para complicar as peças não têm identificação numérica perdendo-se muito tempo procurando peças em um universo de mais de 3.000 peças.

A empresa editora da coleção deveria deixar claro nas embalagens as várias dificuldades de montagem do produto, além de você ter que montar uma oficina de marcenaria, pois as poucas ferramentas sugeridas não dão conta de todo trabalho.

Além dessas peculiaridades, a montagem do modelo é um pouco problemática. Nada possui encaixe. Tudo que podia ser separado foi separado. As lâminas do deck não possuem marcações precisas, e alinhá-las não é fácil. Frestas entre as superestruturas ou entre as chapas de metal são constantes. A todo o momento é preciso medir, cortar, ajustar, aparar ou tampar algo. Nada é fácil nessa construção. E com um manual te orientando mal e as peças falhando na identificação, a montagem é quase traumática.

Mas ao final o resultado é acalentador. Meses de trabalho pesado (esse projeto foi iniciado em 2015, mas entre as pausas no serviço, foram sete meses de montagem, os últimos três de forma muito intensa) resultam numa peça única. Um enorme artefato de 1,20 m digno para um salão de museu. Uma experiência única, exclusiva e intensa. Um projeto que cobra do modelista total imersão, bastante perícia e planejamento dos mínimos passos.  O modelo supera todas, ou quase todas as falhas citadas. Em minha opinião, as mais graves são sem duvida o manual ruim e a falta de um aviso de “Hey, ou você sabe exatamente o que está fazendo, ou caia fora!” para um modelo que se vendeu em banca de jornal. Os demais percalços do modelo fazem parte da forma da Amati trabalhar.

           

A marca quer de você experiência, dedicação, carinho e capricho naquilo que você está fazendo. É um modelo para ser apreciado com calma, sem pressa, passa a passo do manual, com avanços lentos, saboreando etapa após etapa, sem medo de ficar meses, ou mesmo anos num mesmo modelo. É assim que a marca se torna interessante e única no mercado. Se seu objetivo é apenas um Bismarck 1/200, você pode procurar nas coleções de alguém o antigo modelo da Nishimo, ou então investir no belíssimo e moderno Bismarck 1/200 da Trumpeter. Esse modelo da Amati é para apreciadores. Para o modelista a moda antiga, de avental e óculos, trabalhando calmamente em seu bem preparado cantinho ou bancada.

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Um pouco sobre o Couraçado Bismarck.

O Bismarck foi o primeiro de sua classe (ele teve um navio irmão, o Tirpitz), e foi o maior e mais moderno navio construído na Europa até então.  Sua construção iniciou-se em Hamburgo 1936 e foi entregue por completo em 1940. Sua tripulação foi comandada por um único capitão, Ernst Lindmann, e apesar de ser o navio mais emblemático da guerra na Europa, teve uma curta vida, apenas oito meses de operação.

Além de seu tamanho colossal e uma blindagem fora do comum, ele foi construído com o máximo de tecnologia da época. Era uma máquina de guerra formidável, armado até os dentes e com fome de destruição. E logo na sua “ofensiva inaugural” ele enfrentou e afundou em combate o HMS Hood, o orgulha da armada Britânica, além de danificar quase mortalmente outro xodó Inglês, o Prince of Wales.  

Seu sucesso em combate o transformou em alvo número 1 dos ingleses no Atlântico e uma caçada voraz se seguiu, com quase toda a frota inglesa mobilizada para sua caça. Na manhã do dia 25 de maio de 1941, próximo a costa norte da França, a frota Inglesa o achou e iniciou um ataque implacável. Aviões Swordfish do porta-aviões HMS Ark Royal, lançaram seus torpedos contra o navio e pelo menos um deles acertou a popa da embarcação, destruindo um dos seus lemes e paralisando o outro.  O navio se movimentava em círculos, preso ao mesmo lugar e mesmo devolvendo fogo cerrado que recebera e afastando algumas embarcações, na manhã do dia 26 ele estava encurralado.  A marinha britânica afirma ter afundado a embarcação, já sobreviventes afirmam ter recebidos ordens de levar a embarcação a pique propositadamente para evitar uma captura.  Fato é que ao entardecer do dia 27 de maio de 1941, o couraçado Bismarck, a jóia do Reich no Atlântico, repousava em sua morada final.