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FIGURAS COLECIONÁVEIS

Ivânia Farina

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Você que gosta de bandas groove metal e ouve a banda SEVEN DAYS WAR, vai descobrir hoje que ela pode ter mais alguma coisa mais em comum contigo do que o gosto musical. O vocalista pratica um hobby bem diferenciado e até mesmo pouco divulgado: o COLECIONISMO DE FIGURAS ou então a CUSTOMIZACÃO DE FIGURAS COLECIONAVEIS.

Para conhecer um pouco mais desse hobby fui conversar com o Jorge ¨Josh¨ Santana, técnico em manutenção de aeronaves formado pela EMBRAER,

morador da cidade de Canoas (RS), que me contou um pouco sobre esse mundo tão espetacular. Desde pequeno era apaixonado por cinema, series de TV, quadrinhos, e seus heróis como Zorro, Ultra Man e tantos outros da época. Mas somente em 1994, ao participar de uma Comic Store nos Estados Unidos, descobriu um hobby que ele não imaginava existir e que era tão forte por lá e tão raro no Brasil. Pode-se dizer que existiam alguns “bonecos” de poucas empresas, a Gulliver era uma, mas não eram articulados e pouco fiéis aos personagens, estamos falando de uma época anterior aos famosos Falcons!

Por ser fã do personagem Wolverine, não resistiu à tentação e adquiriu um nessa convenção e, como ele mesmo disse: Deu! Foi o começo de uma paixão.

Ele já havia montado alguns kits de plastimodelismo, chegou a montar alguns aviões, mas também figuras de ficção como a ¨X-Wing¨ do filme Star Wars e a Enterprise do Star Trek, ou seja... A veia “figuras de ficção” já estava lá.

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Passou então a comprar figuras que não tinham nenhum tipo de intervenção (já prontas), e depois as figuras que uniram os dois universos de pegar a técnica do plastimodelismo e modificar e buscar figuras novas do colecionismo já na escala 1:6, montou alguns na escala 3 e 3:4, mas não chegam a ser significativas em comparação com a quantidade da escala 1:6.

Assim como acontece no plastimodelismo, há uma dificuldade em estimar o tempo médio que a finalização de um projeto pode levar, pois cada projeto tem um desafio diverso do outro, no caso especifico das figuras o tempo de finalização é uma mistura do tempo que tu fica realmente trabalhando sobre o kit e o tempo que tu leva para adquirir os componentes que irão fazer parte da figura – chamado de “Kit Backing” ou “Aftermarks” – que podem ser armas, equipamentos específicos, roupas, etc. que tu tens que garimpar pelo mundo inteiro para finalizar, Jorge já ficou quatro anos montando uma figura.

Em sua coleção, entre as de escala 1:6 existem em torno de 15 figuras que foram montadas “do zero” por assim dizer, são figuras que sofreram muitas modificações e mão de obra em todos os aspectos, tornando essas figuras únicas. Atualmente os personagens mais populares são mais fáceis de encontrar, pois finalmente o mercado percebeu esse nicho de colecionadores. No restante das figuras há pequenas modificações e ajustes, sendo essa também uma característica desse hobby.  Antigamente aqui no Brasil era mais trabalhoso ainda e quase impossível ter alguma figura que não teve que passar por muito trabalho e dedicação; atualmente ainda podemos nos deparar com as duas situações para ter uma figura “a contento”: encontrar a figura já pronta e ter que adaptar ou incrementar o personagem.

Eu poderia dizer que, por mais riqueza de detalhamento que as figuras são encontradas atualmente, o olhar de um Colecionista sempre encontrará aquele detalhezinho que pode ser modificado ou incrementado. Mas já vai um aviso, se você encontrar uma figura com tantos detalhes e capricho vindos direto do fabricante prepare-se, pois ela vai esgotar rapidamente, tornando-se bem difíceis de serem encontradas no mercado, exigindo que o colecionador se mantenha sempre atendo aos lançamentos e ofertas.

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As figuras que ele considera como as “que deram mais trabalho” e únicas são: Homem de Ferro e o Capitão Nascimento do filme Tropa de Elite.

O Homem de Ferro é o clássico exemplo de figura que é exclusiva e não será encontrada outra igual, mesmo que tenham sido lançadas no mercado, pois na época em que ele quis adquirir para sua coleção só existia esse novo visual mais conhecido do personagem nos quadrinhos (claro que ele queria o mais difícil!), ele pediu ajuda ao amigo e plastimodelista Luiz e começaram uma verdadeira saga, foi necessário esculpir o personagem utilizando outra figura. Ironicamente quando a figura ficou pronta, o filme com o novo visual do personagem foi sucesso no cinema e a empresa Hot Toys lançou no mercado a figura! Esse é um clássico exemplo do hobby, mas existem outros. Ele confessa teve vontade de quebrar a figura que deu tanto trabalho! E, a raiva maior, é que a lançada tem mais detalhamentos do que a que deu tanto trabalho, para acalmar a raiva, adquiriu o personagem e mantém os dois na coleção.

Outra figura que deu bastante trabalho foi a do Capitão Nascimento, pois até o momento não existe alguma empresa produzindo figuras nacionais e, mesmo o filme Tropa de Elite tendo feito sucesso tão grande não houve uma empresa que se voltasse para esse lançamento; não houve a visão de que esse personagem seria um tipo de herói brasileiro, que são tão raros, pois mesmo o filme sendo bastante realista, ele tem uma dose grande de ficção.

Na década de 60 eram ícones os personagens do “Vigilante Rodoviário” e o “Capitão AZA”, mas são figuras tão antigas que estão completamente esquecidas, por isso o Capitão seria o herói brasileiro atual. Como fã do filme, veio à vontade de produzir essa figura. Então começou o trabalho, quase que uma saga! Começando pela dificuldade de conseguir o rosto do “herói”, no caso do ator Vagner Moura, a solução seria esculpir o rosto do ator, em suas buscas ele soube casualmente que um artista em São Paulo estava produzindo esse item, e também outro trabalho é replicar o uniforme do BOP, que foram meses de pesquisa e garimpagem para identificar e confeccionar os acessórios para isso, os bordados de emblemas do uniforme na escala correta. Para chegar ao resultado final foram utilizados materiais de várias partes do mundo e do Brasil: o tecido do Rio de Janeiro, botas de Minas, cabeça de São Paulo, armas de outro país. Mas todo esse trabalho valeu à pena, além da satisfação pessoal essa figura recebeu um premio em um fórum especializado nesse assunto.

Mesmo com uma coleção de aproximadamente 600 figuras cada uma tem uma história para contar, são histórias que envolvem desde a situação e local de compra até o trabalho e pessoas envolvidas para chegar ao resultado esperado e final.

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Na opinião do Jorge o Colecionismo, pode ser praticado sozinho, sem participar de algum grupo, e o hobby traz muitos benefícios, pois serve como uma terapia, e faz com que tu desenvolvas a concentração e o conhecimento, pois um bom resultado final depende de muita pesquisa de materiais, técnicas, situações e, mesmo nas figuras de ficção, pesquisa sobre a história da figura e seus acessórios. No caso dele e de muitos, o hobby proporcionou uma curiosidade grande e aprofundamento na língua inglesa, pois em muitos momentos a solução, dica ou a historia está em sites e pessoas que se comunicam em inglês. A socialização acaba sendo uma conseqüência do hobby, pois tu tens que entrar em contato com pessoas do mundo inteiro. A cultura geral que o hobby traz é rica.

Atualmente com a facilidade da internet, tu até pode praticar o hobby em uma cena típica de filme, onde o modelista está solitário em um sótão montando seus kits, mas há também o prazer de participar de um grupo. O Jorge participa do “Clube Sul de Modelismo” – que tem membros plastimodelistas, ferreomodelistas e de figuras, e do grupo “Escala Um Sexto” – mais especifico de colecionismo de figuras, onde foi por muitos anos um dos administradores, só abandonando o cargo por falta de tempo para dedicação que merece. Esse grupo inclusive foi e é responsável pela organização de encontros muito bons em São Paulo com muita riqueza de figuras, troca de experiências e técnicas. É gratificante sentar em volta de uma grande mesa e cada um montando seu kit, ou dando pitaco nos trabalhos dos colegas, numa verdadeira interação social. Esses encontros físicos fazem com que o modelista tenha mais incentivo para a montagem, pois há ajuda, criticas, sugestões. Ele inclusive diz que muitos produtos finais de sua coleção são frutos da coletividade do hobby, pois sendo autodidata, cada critica, sugestão e ajudas com técnicas e materiais engrandece o trabalho.

Não resisti e fiz a pergunta clássica: Já fizeste muita maluquice em prol do hobby? 

Com um sorriso divertido no rosto veio à resposta rápida e certeira...

“Tirando a parte que paguei por uma figura algo que só maluco pagaria, acho que o projeto “Mini Me” foi um dos mais malucos e gratificantes. Em 2004 praticava mergulho e montei duas figuras com os mesmos acessórios que usava no mergulho, e levei as figuras para fotos subaquáticas! A matéria foi exibida no site “Loucos por Bonecos” do Felipe, e essa matéria inclusive foi incentivadora para outros modelistas fazerem algo semelhante com suas figuras, isso naquela época não era comum, e talvez essa matéria foi uma das primeiras, hoje é inclusive uma categoria do hobby. Isso traz uma satisfação de saber que essa ideia foi aceita, aprovada e feita por muitos outros modelistas, hoje chegam ao ponto de fazerem uma cena histórica com muitas figuras em uma área enorme na escala 1/6 nos EUA, com tanques, trem, trincheira, etc.”

Bah... Hora de encerrar o assunto, por enquanto! Mas diante da visão do local onde está a maior parte das figuras, não pude deixar de perguntar para a esposa Giovana Lumertz, designer de interiores – desconfio até que isso ajudou na hora de preparar o local para tantas figuras – a opinião sobre esse hobby tão diferenciado:

“Antes de conhecer o Jorge, não fazia ideia da existência desse hobby. Acho que tem lado legal que é a curtição, principalmente com o filho Enzo que adora. Mas também tem o lado de esposa que pede para não investir tanto financeiramente na coleção. É um hobby que faz parte da família como um todo, pois o Jorge é apaixonado pela coleção e ela é linda mesmo!”.

Atualmente o Jorge está montando Jackie Chan na escala 1/6. Mas muitos outros projetos ainda estão por vir.