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GUIA PASSO-A-PASSO DE PINTURA WHETERING EM VEÍCULOS MILITARES

Bruno Cascapera

Em 2018 eu estou completando 11 anos como professor de plastimodelismo. Não é pouco tempo, mas ainda temos um longo caminho pela frente. Mas, nesses 11 anos eu aprendi muito mais do que eu ensinei. Umas das coisas que eu aprendi é porque um hobby tão simples pode ter tantos mitos e minhocas na cabeça de modelistas novos e veteranos.

Um dos motivos para esse temor todo é a quantidade de informação que temos hoje. O mundo está repleto de maravilhosas publicações demonstrando as mais variadas técnicas e produtos para montagem. Sim, é isso mesmo, eu não estou me embaralhando nas palavras não, estou querendo dizer isso mesmo: O maior freio de modelistas hoje são as informações em excesso.

É como livros de cirurgia vascular cerebral entregues aos alunos no primeiro dia de faculdade de medicina. Ou então pedir uma receita elaboradíssima de um chefe cinco estrelas famoso para quem só fez macarrão instantâneo na vida. Frase recorrente em meu curso, e meus alunos que não me deixem mentir, “não posso te inscrever no Master Chef se você ainda não estiver acertando no feijão e arroz”.

O intuito dessa matéria em questão é justamente esse, mostrar um modelismo mais básico, mais raiz, mas sem abrir mão de técnicas nem de desempenho, fazer algo legal de forma pratica e fácil sabendo mesclar bem materiais próprios ao plastimodelismo com aquilo que temos a mão. E assim como meu curso, meu principal objetivo com esse tutorial é passar confiança para você que está “freado” no hobby. Confie em você mesmo e faça seu máximo, a excelência virá com o treino e a dedicação, e saiba que Mig Jimenez não inventou o plastimodelismo, ele já é praticado em alto nível há muito tempo.

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A vítima da vez é esse carinha aqui. Um kit comemorativo da Revell sobre o desembarque da Normandia. Consiste de um kit da lancha de desembarque LCM3, kit novo de engenharia moderna e bons encaixes, somado a ele um kit requentado, porém razoável, de um Jeep da Revell lá dos anos 80.

Para esse tutorial, falarei especificamente do Jeep, e para uma próxima ocasião mostraremos o desenvolvimento da lancha.

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Não iremos abordar especificamente a montagem, falaremos mais sobre pintura e efeitos. A dica que posso dar a respeito é o seguinte: Montem o máximo que der dos seus kits antes de iniciarem a pintura.

No mundo ideal, montamos um kit por completo, da primeira a ultima peça, para depois pintarmos. Mas infelizmente não vivemos no mundo ideal. Então para escolher o que você vai colar antes de pintar, recomendo duas avaliações sobre a peça a ser encaixada:

1-Se eu colar essa peça agora, eu consigo pintar ela da forma que eu quero depois? Ela irá cobrir outra peça da qual não terei mais acesso?

2- Qual a chance dessa peça quebrar ou sumir se eu colocar ela nesse momento no kit? Quão delicada ela é?

Se você não obtiver uma resposta clara desses dois questionamentos, a resposta sempre tenderá para o NÃO, ou seja, está em dúvida, não cole a peça e trabalhe ela em separado.

No meu caso reparem que eu o montei quase que totalmente, deixando apenas as rodas e os bancos para fora, assim como o escapamento.

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Apliquei sobre todas as peças e sobre o kit montado uma camada fina e homogênea de primer acrílico. Como irei pintar com duco automotivo PR-Colors, nesse caso o primer é obrigatório. Algumas tintas não possuem a obrigatoriedade de primer, mas mesmo assim eu recomendo sempre sua utilização. Primer ajuda a nivelar as cores do plástico, torna falhas visíveis e irá ajudar na ancoração das cores, e eu utilizarei uma técnica de pintura nesse modelo que se fará valer da cor do primer a seu favor.

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Como foi dito, o modelo foi pintado na cor olive drab duco Pr-Colors. Com certeza você já deve ter ouvido falar da técnica do “pré-shadding” (Revista Hobby News – edição 110). Hoje vou te ensinar algo mais prático e mais simples de fazer, que é a modulação de cores através do controle de saturação da tinta pelo aerógrafo. Eu chamo isso na minha aula de “Aerografia consciente”, porque é o ato de pintar um modelo de forma consciente em relação a efeitos, sombras e tonalidades, e não só jogar tinta com o aerógrafo como um funileiro pinta uma porta de um carro.

A areografia consciente consiste de uma série de técnicas, fundamentos e treinos para ser executada, além de um bom equipamento de aerógrafo e uma boa afinação entre aparelho e usuário. Precisaria da revista toda para falar a respeito, ou então que você viesse fazer o curso... Mas meu objetivo agora com esse tutorial não é assustar, e sim descomplicar, aliviar sua mente para uma pintura segura. Então irei ensinar essa técnica simples e fácil de aplicar da aerografia consciente.

Basta que você aplique tinta com seu aerógrafo de forma mais concisa e precisa em regiões onde haverá sombra de luz ou de cor. Com um bom aerógrafo na mão e sua tinta devidamente diluída a ponto de “leite desnatado” de forma que você tenha total controle do loque/traço de tinta, nos cantos fechados, dobras, vincos, linhas e entalhes do modelo, você ira aproximar bem seu aerógrafo, abrindo a agulha uma pequena fração do curso, e ira pintar fazendo traços de forma bem concisa e delineada, enquanto no resto do modelo, você irá se afastar 3 ou 4 dedos de distância, e ira pintar com um leque mais aberto e de forma mais suave.

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Pode parecer uma técnica complicada, mas com a pratica e o treino, rapidamente você domina ela e seu ganho de tempo nas montagens será enorme. Vejam, com um aerógrafo e uma tinta apenas, o modelo já ficou todo modulado e sombreado, sem precisar de pré-shadding, pós-shadding, criação de novas cores. O próprio tom acinzentado do primer se encarrega de desbotar a cor do seu modelo. Esse pode ser seu resultado, ou pode ser a base para qualquer outra técnica adicional que você queira aplicar. No meu caso, mais adiante eu irei reforçar as sombras.

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A mesma filosofia de aerografia consciente foi utilizada nos estofamentos do Jeep, que ganharam volume e vincos apenas com o controle da saturação e aproximação do aerógrafo.

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Precisamos lidar com a questão da ferrugem na segunda guerra com bastante cuidado. Muita gente gosta de sair enferrujando seus kits por aí, mas precisamos lembrar que a vida útil e o tempo de serviço de um veículo durante a guerra eram muito pequenos, a chance de ele ser destruído, inutilizado ou substituído antes de começar a enferrujar era muito grande. Mas eu irei ensinar uma técnica muito antiga de fazer ferrugem, sem necessidade de produtos específicos, apesar de esses poderem ser utilizados de forma complementar ao efeito. Primeiro passo é pintar toda a peça de um marrom avermelhado, bem “tipão” de oxido mesmo, como na foto.

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Depois recorremos à técnica do DryBrush, ou pincel seco. Consiste em utilizar um pincel de cerdas chatas e duras, molha-lo na tinta e limpar num pedaço de papel ou pano até aparentemente sair toda a tinta. Com esse pincel “limpo”, você esfrega ele na peça em questão formando efeitos diversos. No caso do escapamento, utilizando a DryBrush com uma cor metálica escura em cima da base marrom avermelhado, chega-se a um efeito bastante realista de ferrugem. Esse efeito pode ser seu resultado final, ou pode ser uma base para as técnicas mais modernas, com pigmento, chipping e tudo mais.

O DryBrush é um dos pilares do wethering em kits, e é importante dominar a técnica para chegar a vários efeitos, como o próximo que irei demonstrar.

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Para fazer os gomos dos pneus sujos e terra e pó, começamos pintando o pneu da cor da sujeira.

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Em seguida, com a técnica do DryBrush e um “preto pneu”, você cobre o pneu de forma que os gomos do pneu permanecem sujos.

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Com um aerógrafo de traço fino e tinta bastante diluída (3 partes de diluente para 1 de tinta para uma tinta acrílica automotiva pré diluída, ou seja, uma tinta bem aguada), eu reforço um pouco mais as sombras do modelo. Me concentro mais onde existe menor incidência de luz no modelo real, assim você cria volume no modelo.

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Nesse tutorial, não falarei de colagem de decais. Quem precisar de uma força a respeito, eu tenho um tutorial em vídeo lá no meu blog e no meu canal de Youtube. Mas o momento de colar as decais é agora.

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Hora também de colar todos os penduricalhos.

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Vamos fazer o washed, forma clássica como eu aprendi ha mais de 20 anos, e ensino no meu curso ha 11 anos: Com tinta óleo. Tinta óleo é barata, rende muito, e tem várias funções no hobby, por isso recomendo que você possua uma quantidade legal de cores na sua bancada. Para washed, você pode usar uma cor escura já pronta, mas eu costumo misturar minhas cores. O washed universal, que serve para quase tudo, precisa ser um marrom escuro, “chocolatão” como dizemos, cor de chocolate amargo. Geralmente para chegar nessa cor, eu misturo preto, Vandik brown e Burt siena. Reparem na foto que eu já tenho um potinho dessa mistura pronta, não preciso fabricar todas as vezes. Lembre-se que a tinta do washed é sempre muito diluída, e nunca, em hipótese alguma, use thinner. Para tinta óleo ou esmalte sintético, use água Raz, para tintas a base de água ou álcool isopropílico, use água.

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Com a tinta óleo, aplique em todo o modelo, dê de duas horas pelo menos para que a tinta endureça, e depois limpe com cotonetes, papeis ou panos.

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Vou repetir a técnica do DryBrush para fazer leves descascados com uma cor metálica, mas ao invés de pinel, eu uso essa esponja de maquiagem, e aplico dando leves pancadinhas onde eu quero descascar a pintura (lugares onde há maior solicitação, como assoalhos, cantos de pára-choque e barras de mão e etc.).

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Com fixador de pigmento mais os pigmentos você pode criar lama. (a combinação mais em conta de giz pastel e fixador de cabelo servem também). Primeiro aplicamos um pouco de fixador de pigmento no modelo.

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Em seguida aplicamos um blend de cores em pigmento simulando terra e pó.

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E com esse tutorial, ensinei técnicas simples, bem básica, mas que levantam o modelo de qualquer um. Numa próxima ocasião, irei mostrar a continuidade da construção desse modelo e da lancha que vai junto dele, mostrando mais técnicas e truques simples. Espero que esse tutorial te ajude a ganhar mais confiança para montagem, não se intimide por técnicas muito sofisticadas ou produtos muito caros, o plastimodelismo ainda é muito divertido e muito intuitivo, confie no seu Feeling.

Até a próxima, e boas montagens!