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Câmara aprova emenda que suspende voto de presos provisórios; impacto direto em Bolsonaro e Zambelli

Câmara aprova emenda que suspende voto de presos provisórios; impacto direto em Bolsonaro e Zambelli
21 novembro 2025 19 Comentários Gustavo Campos

A Câmara dos Deputados aprovou, na terça-feira, 18 de novembro de 2024, uma emenda ao Marco Legal do Combate ao Crime Organizado — conhecido como PL Antifacção — que suspende o direito ao voto de pessoas presas provisoriamente, mesmo sem condenação definitiva. A medida, apresentada pelo deputado Marcel van Hattem (Novo-RS), foi aprovada por 349 votos a favor, 40 contrários e uma abstenção, em sessão em Brasília. A mudança, que redefine o que significa ser cidadão no Brasil, coloca em xeque um princípio constitucional básico: a presunção de inocência. E não é só teoria. Se a norma entrar em vigor, Jair Messias Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar por envolvimento na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, poderá perder o direito de votar — mesmo antes de qualquer sentença final.

Um contrassenso chamado democracia

Van Hattem justificou a emenda dizendo que "não faz sentido" alguém afastado da sociedade decidir sobre seus rumos políticos. "Preso não pode votar. É um contrassenso, chega a ser ridículo", afirmou. Para ele, o voto exige liberdade e autonomia — condições que, segundo ele, não existem em uma cela. A justificativa técnica da emenda aponta ainda para "custos operacionais expressivos" e riscos logísticos na organização de urnas em presídios. Mas o que parece lógico para alguns é um retrocesso para outros. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a própria Constituição Federal, no artigo 15, inciso III, só suspenderam direitos políticos após trânsito em julgado — ou seja, quando a condenação se torna definitiva. A emenda quer antecipar isso. Sem julgamento. Sem recurso. Só com a prisão.

A reação do PT e a ironia política

Curiosamente, o líder do Partido dos Trabalhadores (PT), Lindbergh Farias (PT-RJ), votou a favor da emenda — mas com um tom de ironia pesada. "Vamos votar 'sim' sabendo que é inconstitucional", disse. Ele não escondeu a intenção política: "Parece que o Partido Novo já abandonou Bolsonaro. Agora quer tirar o voto dele. Hoje, quem tem trânsito em julgado não vota. Agora, querem antecipar para a prisão provisória". A observação foi clara: a emenda, mesmo que disfarçada de combate ao crime, parece ter um alvo específico. E não é só Bolsonaro. A deputada Carla Zambelli (PL-SP), presa na Itália desde outubro de 2024 após condenação definitiva por perseguição, já perdeu o direito ao voto — mas Farias lembrou: "Se estamos falando de direitos políticos, temos uma deputada federal exercendo mandato presa na Itália. No mínimo, ela tinha de ser cassada imediatamente". A contradição é gritante: enquanto Zambelli foi punida com base na lei, Bolsonaro ainda aguarda julgamento. Por que, então, aplicar a mesma regra a ele agora?

O que vem a seguir: Senado, veto e STF

O que vem a seguir: Senado, veto e STF

Agora, o projeto segue para o Senado Federal, onde será relatado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE). Ele já sinalizou que analisará com cuidado os aspectos constitucionais. Se aprovado, o texto vai para a presidência — e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem tudo para vetar. Mas mesmo que sancionado, a norma enfrentará um muro de concreto: o Supremo Tribunal Federal (STF). Especialistas em direito eleitoral e constitucional concordam: a medida viola o artigo 5º, inciso LVII, da Constituição, que garante a presunção de inocência até o trânsito em julgado. O STF já decidiu em 2022, no caso do ex-presidente Lula, que a prisão provisória não suspende direitos políticos. E não há razão para mudar esse entendimento agora. O risco? Um impasse institucional. O Congresso aprova. O presidente veta. O Congresso derruba o veto. O STF anula. O ciclo se repete. E a população fica confusa.

Um precedente perigoso

A emenda não é só sobre voto. É sobre quem decide o que é cidadania. Se o Estado pode retirar direitos políticos com base em prisão temporária, amanhã pode fazer o mesmo com direito à liberdade de expressão, à educação, ao trabalho. É um passo sutil, mas profundo, rumo a um sistema onde a punição antecede a culpa. O Marco Legal do Combate ao Crime Organizado traz outras medidas duras: aumento de penas, apreensão de bens, criminalização de ataques a hospitais, escolas e redes de energia. Mas é justamente nesse contexto que a emenda do voto se destaca: não é um instrumento de segurança, é um instrumento político. E isso assusta. Porque, quando a lei é usada para silenciar adversários — mesmo que disfarçada de combate ao crime —, ninguém está seguro.

Quem mais pode ser afetado?

Quem mais pode ser afetado?

Além de Bolsonaro, há dezenas de políticos em prisão provisória por investigações em andamento — desde casos de corrupção até acusações de incitação à violência. Em São Paulo, por exemplo, ex-prefeitos e ex-secretários aguardam julgamento. No Rio, lideranças de milícias estão detidas sem sentença. Se a emenda for aprovada, todos perderão o voto. Mas o que acontece com os presos sem recursos, sem advogados, sem mídia? Eles também serão silenciados. E isso não é justiça. É exclusão. A democracia não se sustenta quando escolhe quem pode ou não participar. Ela se sustenta quando garante que todos — mesmo os que erraram — tenham voz, até que a lei decida o contrário.

Frequently Asked Questions

Como a emenda afeta o direito ao voto de presos provisórios?

A emenda suspende o voto de qualquer pessoa presa provisoriamente, mesmo sem condenação definitiva, o que contraria a Constituição e a jurisprudência do TSE. Atualmente, apenas quem tem trânsito em julgado perde o direito. Com a nova regra, bastaria uma prisão preventiva — mesmo que injusta — para perder o voto. Isso afeta milhares de cidadãos, especialmente os pobres, que não têm acesso a recursos jurídicos rápidos.

Por que a emenda pode ser considerada inconstitucional?

A Constituição Federal garante a presunção de inocência até o trânsito em julgado da sentença (art. 5º, LVII). O STF já decidiu, em casos como o de Lula, que prisão provisória não implica perda de direitos políticos. A emenda antecipa uma sanção penal sem julgamento final, o que configura violação direta da Carta Magna. Qualquer lei que contrarie a Constituição pode ser anulada pelo Supremo, mesmo após ser sancionada.

O que diferencia Bolsonaro de Carla Zambelli nesse contexto?

Bolsonaro está em prisão domiciliar, mas seu processo ainda não foi concluído — não há trânsito em julgado. Zambelli, por outro lado, foi condenada definitivamente em outubro de 2024 por perseguição, o que já suspende seus direitos políticos conforme a lei vigente. A emenda tenta aplicar a mesma regra a Bolsonaro antes da condenação, o que é o cerne da polêmica: punir antes de provar.

Qual é o papel do Senado e do presidente Lula agora?

O Senado, com relator Alessandro Vieira, pode alterar, rejeitar ou aprovar a emenda. Se aprovada, o presidente Lula pode vetar por razões de constitucionalidade — e tem apoio jurídico para isso. Caso o Congresso derrube o veto, o STF ainda pode anular a norma. O caminho é longo, mas o desfecho mais provável é a anulação judicial, como ocorreu com outras medidas similares no passado, como a tentativa de suspender votos de condenados em segunda instância.

Essa emenda é nova ou já aconteceu antes no Brasil?

Não é nova. Em 2018, uma proposta similar foi rejeitada pela Câmara por violar a presunção de inocência. Em 2022, o STF reafirmou que prisão provisória não suspende direitos políticos. O que é diferente agora é o contexto político: a emenda surge em um momento de alta polarização, com figuras como Bolsonaro e Zambelli no centro do debate. Isso transforma o que era uma ideia jurídica em uma arma eleitoral.

O que os especialistas dizem sobre o impacto na democracia?

Especialistas como o jurista Luís Roberto Barroso e a cientista política Maria do Socorro Silva alertam que a medida abre caminho para a "criminalização da oposição". Se o voto pode ser retirado por decisão política de prisão, a democracia perde sua essência: a representação de todos os cidadãos. A regra não combate crime — combate eleitores. E isso, mais do que qualquer lei, ameaça a própria base da república.

19 Comentários

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    Thaiane Cândido

    novembro 22, 2025 AT 19:32
    Essa emenda é um desastre constitucional. Presunção de inocência é pilar da democracia, não um detalhe técnico. Se a gente começar a tirar direitos por prisão provisória, amanhã alguém pode ser preso por um tweet e perder o voto. 🤦‍♀️
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    johnny dias

    novembro 23, 2025 AT 09:34
    Cara, eu entendo o lado de quem diz que preso não deveria votar, mas aí a gente vira um tribunal de opinião. A lei tem que ser igual pra todo mundo, não só pra quem a gente não gosta. 😅
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    andreia santos macena

    novembro 24, 2025 AT 03:48
    Essa é a típica manipulação jurídica de quem quer silenciar adversários. A emenda não tem nenhuma base legal sólida, apenas um desejo político disfarçado de moralidade. E aí vem a hipocrisia: Zambelli foi punida por condenação, Bolsonaro não. Mas a emenda quer igualar o que não é igual. Triste.
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    Leroy Da Costa

    novembro 24, 2025 AT 08:26
    O STF já decidiu isso duas vezes: prisão provisória não suspende direitos políticos. Artigo 5º, LVII. A emenda é claramente inconstitucional. O Senado vai ter que escolher entre seguir a lei ou ceder à pressão populista. E o povo? Vai pagar o preço da confusão institucional.
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    Samuel Ribeiro

    novembro 24, 2025 AT 18:11
    Interessante como o PT votou a favor, mas com ironia. Tipo: 'vamos aprovar pra depois derrubar no STF'. É um jogo político bem calculado. Mas e os presos sem nome, sem mídia, sem advogado? Eles também vão perder o voto. Isso é justiça?
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    Juliana Rosal Cangussu

    novembro 24, 2025 AT 18:43
    Democracia é quando até quem errou ainda tem voz. Se a gente começar a cortar direitos antes do julgamento, aí não é justiça, é vingança. E eu acho que a gente merece melhor que isso
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    Erielton Nascimento

    novembro 25, 2025 AT 21:05
    Se o voto é direito, não pode ser tirado por prisão. Ponto. Não importa se é Bolsonaro ou seu vizinho. A lei tem que ser igual. Se não for, a gente tá no mesmo barco que os países que a gente critica
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    Maiara Soares

    novembro 25, 2025 AT 22:08
    Essa emenda é o fim da democracia disfarçada de combate ao crime. É o mesmo discurso que os regimes autoritários usam: 'você não merece direitos porque você é perigoso'. Mas quem define o que é perigoso? O governo? A mídia? O povo com ódio no coração? 🤔
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    Leonardo López Guillén

    novembro 27, 2025 AT 08:02
    A gente precisa lembrar que a maioria dos presos provisórios são pobres, negros, sem recursos. Eles não têm acesso a um bom advogado. Então essa emenda vai atingir mais quem já está na desigualdade. E isso não é combate ao crime, é combate aos pobres. 💔
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    Hálen Yuri Oliveira

    novembro 28, 2025 AT 05:11
    Votar é um direito, não um privilégio. Se a gente começa a tirar isso por prisão provisória, amanhã a gente tira o direito de andar na rua, de usar o transporte, de ir na escola. A gente ta indo pra um lugar perigoso
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    ana paula teixeira rocha

    novembro 29, 2025 AT 15:58
    Ah, então agora o voto é só pra quem tá de boas? 😏 E se eu for preso por um erro de julgamento? Vou perder o voto por 2 anos enquanto espero o julgamento? E se o juiz for corrupto? E se o delegado tiver um ranço? Vai ser assim que a gente constrói justiça?
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    Jose de Alcantara Xavier

    dezembro 1, 2025 AT 13:10
    Preso não vota. Ponto final. Se você cometeu um crime, já perdeu o direito de decidir sobre o país. É lógico. A sociedade não pode ser governada por quem tá preso. Nem que seja provisório. Isso é caos.
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    Leonardo Netto

    dezembro 2, 2025 AT 00:09
    O que acontece se alguém for preso provisoriamente por engano? Aí ele perde o voto por anos, e depois descobrem que era inocente? Ele recupera o direito? Como isso funciona na prática?
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    Paulo Garcia

    dezembro 2, 2025 AT 07:59
    Essa emenda é uma vergonha. É o mesmo discurso fascista que a gente viu na década de 70. Preso não vota? Então quem decide se é culpado? O delegado? O juiz que tá com pressa? A mídia? Isso não é democracia, é ditadura com máscara de lei
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    Ayrton de Lima

    dezembro 2, 2025 AT 12:22
    Essa emenda é um ato de coragem jurídica? Não. É um ato de covardia política. Ela não combate crime organizado. Ela combate a oposição. É uma arma disfarçada de norma. E o pior: ela não é nova - é só a versão 2.0 do que já tentaram em 2018. A mesma lógica, o mesmo discurso, só com mais fake news e menos vergonha. O Brasil tá virando um reality show de direitos humanos.
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    Luís Vinícius M C

    dezembro 2, 2025 AT 12:55
    Tô de acordo com o Leroy. O STF vai derrubar isso. A gente já viu isso antes. O problema é que enquanto isso acontece, a confusão tá na cabeça do povo. E isso é o que os políticos querem.
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    Iara Rombo

    dezembro 3, 2025 AT 22:21
    Democracia não é só sobre voto. É sobre quem tem voz. E quando a lei começa a silenciar pessoas antes do julgamento, ela deixa de ser justa. Ela vira um instrumento de poder. E isso, meu amigo, é o que destrói nações.
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    Cheryl Ferreira

    dezembro 5, 2025 AT 12:24
    A Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso LVII, estabelece de forma inequívoca que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. A emenda proposta viola diretamente esse princípio fundamental, configurando uma contrariedade à ordem jurídica constitucional. A anulação por meio de ação direta de inconstitucionalidade é, portanto, não apenas provável, mas inevitável.
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    Laís Norah

    dezembro 6, 2025 AT 21:34
    Acho que o mais triste disso tudo não é a emenda. É que a gente tá acostumado. A gente já viu isso antes. E a gente já viu o STF derrubar. E a gente vai ver de novo. Mas a cada vez, a gente perde um pouco da nossa confiança. E isso... isso dói mais do que qualquer lei.

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